sexta-feira, 5 de agosto de 2016

"Cauchemar", um conto na revista Tlön (nº1)




Havia um ruído de garrafas ensanguentadas. Era noite e as mãos ofereciam-se. Pela claraboia ecoavam as palpitações dos pássaros. Era noite. Noite até ao cerne das estrelas. E as anémicas mãos ofereciam-se às raízes das chuvas que escorriam dos pátios lavados e pelas lajes brancas das varandas, como um dilúvio de flores. 
Mas era um dilúvio de facas. A insonora lentidão dos gritos que nos rodeavam as bocas, e os olhos céleres como leopardos em vigília. Através das fechaduras das portas e da cinza dos cigarros de meu pai e da opalina claridade dos vidros plagiadores, eu lembro, entrevíamos o espelho. O espelho basculante que respirava contra o sono das paredes há tantos séculos e tantos séculos intermitentes, pelos canais do nosso soro genealógico.

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