©Alison Scarpulla

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Lembro-te no sangue religioso dos lavatórios (...)

Lembro-te no sangue religioso dos lavatórios
As minhas tripas carregam o teu nome contra a fúnebre 
manhã desta metrópole 
e a minha boca é um secretíssimo casulo 
uma sirene ressoando a nossa intrépida orfandade 
Eu mulher que me levanto para a infinita melancolia dos pássaros
Tu, rapaz ferido nas pupilas, que estremeces nessa nuvem de bolor
com beijos magros, levantados de insolência
e um coração lividamente a extraviar-se entre os fantasmas

Lembro-te no brilho dos lençóis 
e sob o pó destes telhados destruídos tento encerrar a tua 
imagem no interior das minhas pálpebras, esconder 
o estertor da tua voz
ou habilmente diluir as paisagens 
onde pisaram os ossos tristes dos teus pés 
Dias a fio escondo a forma dos teus dentes
mas ouço sempre os seus estalos pavorosos
o teu sorriso desatando as flores lívidas do medo
o beliscar da tua língua à semelhança de uma faca 
sonora

Se espeto garfos e agulhas nas lombadas dos livros
para antever-te na beleza de animal 
glorificado
se respiro arduamente pelos finíssimos pulmões das mariposas
se mastigo a beladona e aguardo que se acenda a nossa 
lâmpada necrótica

Se atravesso as salas frias desta casa
à procura de um espelho que transborde claridades 
e subo e desço estes degraus em desamparo 
em corpo estreito a quem cortaram os cabelos, o frenesim 
das omoplatas, a dor estática dos 
gritos,
em corpo duplo a quem ceifaram o seu duplo
com o cirúrgico rigor de quem descola siameses 

Se espero o batimento dos outonos 
tu regressas, passo a passo, com os teus gestos e o teu 
halo de poeira  
como uma sombra a reclinar-se sobre a neve de novembro
e há pombos que desabam dos tetos líricos das cúpulas
geladas
e eu cresço muito entre a agonia dos pilares 
Eu que sempre assemelhei o amor ao fuzilamento de um pássaro 
O amor, os grandes pássaros a pique 
à grande e louca velocidade da luz 


[texto publicado na revista gueto]

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

"Cauchemar", um conto na revista Tlön (nº1)





Havia um ruído de garrafas ensanguentadas. Era noite e as mãos ofereciam-se. Pela claraboia ecoavam as palpitações dos pássaros. Era noite. Noite até ao cerne das estrelas. E as anémicas mãos ofereciam-se às raízes das chuvas que escorriam dos pátios lavados e pelas lajes brancas das varandas, como um dilúvio de flores. 
Mas era um dilúvio de facas. A insonora lentidão dos gritos que nos rodeavam as bocas, e os olhos céleres como leopardos em vigília. Através das fechaduras das portas e da cinza dos cigarros de meu pai e da opalina claridade dos vidros plagiadores, eu lembro, entrevíamos o espelho. O espelho basculante que respirava contra o sono das paredes há tantos séculos e tantos séculos intermitentes, pelos canais do nosso soro genealógico.

(...)